Guarda teu fôlego
- Rejayne Nardy

- 19 de abr.
- 3 min de leitura
Essa semana vi pessoas que amo passando por coisas difíceis.
Queria ter feito algo. Não pude. Ninguém pode.
Existe colo, existe escuta, existe remédio, terapia e a frase certa na hora certa. Existe recurso. Mas transpor qualquer coisa que pese de verdade é mais solitário do que a gente se dá conta. E é assim desde sempre.
A vida inteira é uma sucessão de montanhas que se escala, uma por uma. O primeiro passo. Uma nova cidade. Mais um amor que não deu certo. Os hormônios que mudam sem avisar. O trabalho que perde o sentido. Os filhos que crescem. Os pais que envelhecem. O tempo, que é sempre menos do que a gente precisava.
A gente sobe uma, mal respira, e já tem outra logo à frente. Tudo é montanha. E do outro lado mora o que a gente quer, o que a gente sente que precisa... enquanto o mundo segue numa normalidade tão normal que dá a impressão de que pausa não existe. Sempre tem uma voz, de fora ou de dentro, chamando pra próxima escalada. E sempre tem aquela que aparece sem pedir licença, exigindo mais do que a gente acredita suportar.
E é nessa hora que a gente entende: superar é, bem mais solitário que coletivo. É força que não se empresta. Coragem que não se transfere. Existe apoio (e graças a Deus existe), mas a decisão de agir nasce num lugar secreto, dentro, onde só a gente entra. Desistir mora nesse mesmo lugar. Recomeçar, também.
A partir dessa solidão, todo o resto se organiza. Os papéis ficam claros e a gente para de achar que é o outro que nos salva.
Escrevo hoje pra quem se deparou com o monte Everest, com as pernas tremendo, com o peito rasgado por dentro, sem saber se aguenta o primeiro metro.
Se é você e só você quem sobe, é recomendado escolher bem (quando possível) qual montanha subir. Guarda teu fôlego. Guarda para aquela elevação que é sua de verdade. Essa que não foi imposta pelas vontades dos outros ou que você inventou ser necessária. Reserva forças para aquela que sempre se apresenta sem que a gente queira. Esse tipo vem. Sempre vem. E a gente precisa de cada grama do que pode ser poupado para encarar.
E se você é quem sobe, é você também quem decide o ritmo. O ritmo não precisa ser imparável. A queda faz parte. O desvio faz parte. O choro no meio do caminho, limpando o rosto com as costas da mão suja de terra, é permitido.
Você vai chegar. Talvez não hoje. Talvez não dessa vez. Esse tipo mais íngreme de montanha a gente só vence em mais de uma tentativa. E se hoje tudo que você consegue é ficar sentada olhando o céu, fica.
Nem todo dia é dia de vencer. Tem dia que a gente tem o direito de poupar energia até amanhã, quando talvez a montanha pareça menor, ou você esteja maior, ou o caminho se revele por outro ângulo. Não subir hoje não é desistir. É esperar a hora em que a subida pode ter mais sentido.
Ir, parar, recomeçar. Tudo é travessia. Vida é percurso. Sentir cada passo, por mais que doa, é muito mais incrível que chegar ao topo de todas as montanhas sem saber direito o próprio nome, a própria vontade.
Tem um paradoxo bonito em cada escalada solitária: justamente por ninguém poder subir no lugar de ninguém, quem está na montanha ao lado, no topo ou no pé da escalada também sabe o que é subir sozinho. Essa gente que não está na mesma pisada que você, mas reconhece o esforço. Gente que ama você em silêncio, que reza sem avisar, que guarda espaço pra quando vocês encontrarem uma pausa em comum. Gente que empresta equipamento, que compartilha o que já aprendeu.
É pouco. E é tudo. Porque ninguém sobe em seu lugar, mas muitos torcem e têm fé em você. Em qualquer escalada, você vai só. Mas sempre tem quem vigia ao redor.

Crônica sobre superação | Idade Crônica



Comentários