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Cena de Filme

  • Foto do escritor: Rejayne Nardy
    Rejayne Nardy
  • há 29 minutos
  • 2 min de leitura
cena de filme crônica

Sempre quis viver uma daquelas cenas finais de comédias românticas.

Você sabe qual: o mal-entendido, a correria desesperada, alguém ofegante, chegando no aeroporto segundos depois do embarque e de vencer o trânsito engarrafado e uma chuva torrencial.


Nunca aconteceu comigo.

Nada nem parecido.

Quem me deixou, foi mesmo.

Que eu deixei, ficou.


Zero reviravolta. 100% vida real.


Tenho total consciência do poder de uma boa narrativa e de tudo aquilo para o qual eu já passei da idade, mas, toda vez que assisto a uma cena assim, dou aquele sorrisinho idiota e penso que “queria ter vivido um momento desses.”


Sim, queria... Mesmo vivendo um casamento estável, escolhido diariamente com maturidade e paz, ainda assim, lá no fundo, quando há gatilhos, essa vontade vibra: sentir frio na barriga... ser o frio na barriga de alguém. Ser o motivo da pressa, da coragem, da cena que as pessoas param pra ver.


Às vezes, mesmo com todo o preparo emocional, mesmo com toda consciência que o amadurecimento traz, não é fácil perceber que certas cenas talvez não nos pertençam mais.


É difícil quando a gente começa a separar o joio do trigo. Ou melhor, a dividir o mundo entre os “jovens e os tios”.  Entre os que podem dançar até o fim da festa, e os que já pensam na lombar. Entre os que se demitem pra viajar o mundo, e os que seguram o trampo porque têm filhos, boletos, planos de saúde. Entre os que declaram amor embaixo da chuva, e os que olham o tempo e dizem “melhor levarmos o guarda-chuva”.


E a recomendação social é clara: “Se contente.”Mesmo que você ainda sinta que… daria conta.


Muitos sucumbem. Desistem de si com o passar dos anos. Mas quem atualiza seus motivos pra seguir — por menores que sejam — ganha sobrevida. Sobrevida física, mental, espiritual.


Viver, no fundo, parecer ser sobre isso: encontrar razões e com elas (ou por elas) viver mais. Elas não precisam ser grandiosas. Não precisam mudar o mundo ou serem dignas de um Nobel da Paz.

 

 

É suficiente aceitar as nossas razões.  Mesmo quando pequenas. Mesmo que pareçam tolas pra quem olha de fora. Mesmo que inconfessáveis como depender de séries turcas mornas em tudo e com final duvidoso, como se orgulhar de ser suporte técnico da mãe que ainda não aprendeu como funciona o streaming ou ter uma figurinha muito boa guardada pra usar na hora certa.


Não importa o tamanho, o nível de superficialidade ou a estranheza que causam. Se as nossas razões nos fazem levantar, rir ou respirar mais fundo… elas são o que a gente precisa.


Em lugar nenhum está escrito que só causas nobres sustentam a vida. Às vezes, é só a coxinha da padaria que nos segura no planeta. É esperar a jabuticabeira dar frutos outra vez que nos empurra pra mais um ano.


Porque viver não é sobre ser épico. É sobre continuar… por um fio que a gente ainda quer segurar.

 

 

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