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Estações

Foto do escritor: Rejayne Nardy
Rejayne Nardy
há 3 horas
2 min de leitura
Estações da Vida

Nunca mais fui a mesma depois de um curso que, em teoria, me ensinaria a liderar melhor pessoas. Era 2014 e saí de lá com a certeza que eu conduzia a mim mesma suficientemente mal para deixar a desejar na gestão.

Era um curso inspirado em filosofias orientais. Falava de presença, escuta, energia, ciclos. Eu, naturalmente pragmática, fui atrás de ferramentas para gestão. Encontrei algo mais delicado e mais perturbador: a ideia de sentir o corpo como a natureza sente as estações.

Na época, isso me pareceu bonito e quase impraticável. Hoje, depois de ciclos e mais ciclos vividos, me parece urgente.

É mais ou menos assim: no verão, a luz muda, o ar muda, há luz de sobra para novas ideias, novas vontades. O inverno adormece, mesmo contra nossa vontade, o que não faz mais sentido, o que precisa partir. O outono solta o que a árvore já não sustenta. Enquanto a primavera insiste, mesmo depois dos períodos mais secos.

A natureza flui. Só nós inventamos resistência a isso.

Passamos os dias ocupados demais para notar nossas próprias (e inevitáveis) mudanças. Cumprimos horários, entregamos tarefas, sustentamos versões antigas de nós mesmos por apego, costume ou falta de tempo. Enquanto isso, por dentro, a estação já mudou. E do lado de fora, muitos de nós ficam estancados no mesmo lugar.

Há tanta gente atravessando o inverno com pouca roupa, vivendo a primavera, mas insistindo em lutos vencidos. Há exaustão na busca por flores de todas as cores, quando é hora só de repouso. Tem gente demais sentindo os ventos do outono e achando que é crise e não apenas o vento reorganizando folhas.

O cotidiano, quando vivido sem pausas e sem escuta, atropela algo fundamental: nossas transições. Mudamos de temperatura interna e seguimos fingindo clima estável. E talvez por isso tanta coisa emperre. O corpo numa estação. A agenda em outra. O coração tentando acompanhar ambas, ofegante.

Os orientais entenderam cedo algo que, aqui no ocidente, não damos importância: o corpo não é veículo para nos carregar. É casa para nos informar. O corpo sabe quando algo terminou antes que a coragem admita. Sabe quando algo começa antes que a lógica aprove. Eu mesma vivi períodos em que nada fluía direito. Hoje suspeito que eu estava na estação errada. Dentro era inverno, e eu jurava que era verão. Já quis colher no tempo de plantar. Quis folhas secas presas aos galhos por mera dificuldade de despedida.

Agora tenho tentado aceitar melhor os climas dos meus dias e dos meus anos. Sentir quando esfria. Guardar o casaco, quando aquece. Respeitar quando venta forte e confiar quando nada floresceu ainda.

É bom que a gente aceite de vez que cada estação traz novos pedaços de nós e perdas inevitáveis. Chegar e partir talvez sejam só mesmo o movimento natural de viver.

A natureza muda sem culpa. A gente se lamenta, despista ou se desculpa por mudar.

Temos a arrogância de achar que não somos natureza, apenas porque conseguimos atravessá-la com racionalidade. 


Pensar, decidir, escolher é do homem. Mas viver mesmooo, em sua plenitude, ainda é atravessar os dias, fluindo como a natureza e não contra ela.

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