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Descanso Produtivo

  • Foto do escritor: Rejayne Nardy
    Rejayne Nardy
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 8 horas

Nesse feriado, notei que até o meu descanso eu transformei em obrigação bem organizada.

A agenda foi bloqueada, a playlist curada. Planejei banho demorado, mas não demorado demais. Chá pra garantir o sono perfeito, skincare pra hidratar e aliviar a pele. Deixei o bloco de anotação do lado da cama pra escrever antes que o pensamento escapasse e sabotasse o dia seguinte. Descansar virou projeto com lista de entregáveis.  Estou cansada.

Sei que bastante gente divide comigo essa função invisivelmente moderna. A gente não dorme mais, a gente faz higiene do sono. Ninguém fica só quieto num sofá. A pessoa agora medita. E se não consegue meditar (eu nunca consigo), tem culpa. E se medita errado, tem mais culpa ainda. Não se toma mais um simples banho... criamos ritual. Não tomamos mais um café no meio da tarde. A gente celebra uma pausa consciente. Ninguém mais tira folga, sabático ou emenda o feriado. Nós entramos em modo de recuperação ativa. Recuperação da vida que a gente mesmo escolheu.

E claro, no fim, o descanso cansa. Porque descanso moderno tem KPI. Dormiu 7h12min, mas o sono profundo foi de apenas 34 minutos, e o relógio (ou agora o anel) inteligente fez questão de avisar, logo cedo, que a qualidade deixou a desejar. Existe um parecer sobre a sua noite. Existe uma nota. Existe uma barrinha colorida que te diz, em tom clínico, que você deveria ter descansado melhor o seu descanso.

Eu lembro da minha mãe tirando o cochilo da tarde, pé pra cima, boca aberta, um escurinho bom no quarto. Nenhum aplicativo acompanhava o momento. Nenhuma meta precisava ser alcançada e ela acordava inteira, plena e pronta pra fazer uma travessa de biscoito de polvilho que a casa inteira amava. Coisa de um tempo que deixou saudade ou coisa de quem vivia o luxo de não precisar se medir o tempo inteiro.

Hoje, descansar de verdade precisar ser um escolha consciente de parar de provar que se está descansando. Sabe, quando o ócio vira ócio mesmo? Sem foto, sem copy, sem mindset, sem intenção de performar descanso. Quando ficar à toa para de ser mais um problema a resolver e vira só relaxamento puro.

E descansar de verdade requer, talvez, um simples cuidado. Pode ser necessário fugir daquela amiga ou influenciadora padrão que diz, com os olhos brilhando, que o segredo é acordar às cinco. A moça que afirma ter lido dois livros, treinado, tomado água morna com limão e planejado a semana antes da cafeteira apitar. Ela costuma aparecer bem naquela hora que a gente só quer virar pro lado e tirar um cochilo em paz e faz a gente se sentir em falta de novo. Em falta com quem, exatamente? Com o próprio corpo, que pedia só uma hora de nada.

Descanso produtivo virou uma armadilha do bem. É cansaço fantasiado de autocuidado. É jornada dupla disfarçada de bem-estar. Muitos de nós exaustos, mas pela casa paira o aroma de vela perfumada.

Olhando ao meu redor, desconfio que a única pessoa genuinamente descansada que conheço é a Meg, cachorrinha das minhas filhas. Ela segue a rotina sem propósito. Não tem meta. Não tem plano de carreira, nem diário de gratidão, nem se dá conta de que existe suplemento pro cansaço e má alimentação.  Ela só deita, relaxa, brilhando em cor de biscoito. Às vezes no sol, às vezes em baixo da minha mesa enquanto escrevo. E dorme como quem entende algo que a gente não consegue mais.

Fica aqui uma dúvida pra gente esmiuçar: e se tentássemos, de vez em quando, descansar mal? Descansar errado? Descansar sem otimizar? Dormir a tarde toda ou o final de semana inteiro. Tomar Danete sem culpa, feito criança. E se a gente tentasse despertar de cara amassada, sem registro, sem gráfico, sem nada pra comemorar de meta alcançada.

Parece pouco. Mas desconfio que seja quase tudo que atualmente precisamos.


Vela com a palavra PAUSA derretendo — crônica sobre descanso e autocuidado na meia-idade

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