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Meu Avesso

Foto do escritor: Rejayne Nardy
Rejayne Nardy
há 2 horas
3 min de leitura

Tenho curiosidade sobre a mulher que eu teria sido se não tivesse aprendido tão cedo a me comportar.


Não a mulher melhor. Nem a mais bem resolvida, categoria inventada pra nos moldar mais um pouco. Falo da mulher inteira. Aquela que cresceria sem tantas podas estratégicas, sem o treino imparável para caber, agradar, apaziguar, embelezar desconfortos e pedir desculpas por ocupar espaço.


Não escrevo aqui como militante feminista. E reparo que acabo de pedir desculpas por um texto que nem começou direito. Hábito antigo. Mas preciso reconhecer que, às vezes, suspeito que passei boa parte da vida administrando incêndios acesos em mim pela tentativa de parecer serena.


Recentemente refiz meu mapa astral. Sagitário com ascendente em Leão e lua em Capricórnio. Traduzindo para os íntimos e para os céticos: um cavalo querendo correr orgulhosamente pra conquistar grandes feitos e uma planilha pedindo prudência e comprovação de resultados. Uma fogueira interna a ponto de incendiar o terninho. Um impulso de horizonte sendo chamado para reunião às oito.

Antes, fiz meu MBTI, que podemos chamar de “horóscopo do LinkedIn”. Descobri que intuição e pensamento analítico se encontram em proporções semelhantes no meu perfil. Outra vez a mesma notícia com nomes diferentes: dentro de mim mora uma mulher que imagina e outra que exige evidências. Uma quer pular a janela. A outra pergunta sobre o impacto no trimestre.

No almoço com meu coach, a conversa virou sessão sobre como lidar com a executiva e a artista dentro de mim. Nenhuma das duas quer ceder. E, sabemos, alguém precisa... A executiva paga boletos, conduz apresentações, sustenta agendas. A artista escreve frases em guardanapos, vê entrelinhas na música 7 da playlist e ainda acredita que estética pode salvar uma terça-feira. As duas se toleram, outras vezes entram em combate por semanas.  


Se eu voltasse mais para trás, encontraria material abundante para explicar essa assembleia interna. Um pai exigente e rígido. Uma educação cheia de regras. Uma mãe corajosa , que fez escolhas difíceis num tempo em que escolher era luxo pra poucas. Mulheres aprendem cedo que suas decisões íntimas costumam virar assunto público e precisam ser preservadas. E que a liberdade feminina, em quase todas as culturas, ainda entra pela porta dos fundos.


Crescemos observando e assimilando (mesmo contra nossa natureza) que os homens difíceis são os mais fortes e que as mulheres difíceis são problema. Ambição masculina vira inspiração e feminina, desagrado. Nos ensinam que a raiva deles impõe respeito e que a nossa pede remédio. E mais: que para eles envelhecer amadurece enquanto que para nós, faz desaparecer.


Talvez por isso eu tenha me sentido tantas vezes, assim como várias outras mulheres, partida entre o que sou e o que convém. Sou capaz de afirmar que essa é uma condição para todas nós e, nunca, um privilégio que os astros me entregaram quando nasci com sol em sagitário e lua em capricórnio.


Penso, não muito, mas penso, nas mulheres que não aceitaram moldes. Em Frida, transformando dor em cor. Em Clarice, escrevendo como quem abre portas sem maçaneta. Em minha mãe, minha avó... Em tantas anônimas que nunca foram biografadas, mas enfrentaram maridos, padres, chefes, cidades pequenas (inteiras) e os comentários cruéis no almoço de domingo. Penso em mulheres que se recusaram a caber e abriram um pequeno buraco na parede para as outras respirarem.


Queria, e ainda quero, ser mais como elas. Mas, às vezes, duvido ser capaz. E por isso, sigo investigando se minhas contradições são astrológicas, comportamentais, psicológicas ou apenas o efeito colateral de ter sido contida tantas vezes até aqui. Efeito esse que provavelmente ainda vai me conter mais adiante. Eu que lute.


Será que sou confusa? Ou apenas estou atravessando por tempo demais a crise de meia-idade? Será que ando buscando vastidão em ambiente pequeno ou apenas ando exagerada com as palavras?  Eu e meu avesso estamos em guerra? Ou meu avesso não é o oposto de mim e só a versão que sobrou mais do lado de dentro, lutando finalmente pra sair? Se tem outras mulheres por aí tentando entender o que foi contido em si, sugiro um encontro num fim de tarde qualquer. Às vezes, a saída começa quando uma mulher se reconhece na outra.


Bordado em bastidor com flores e borboletas laranja ligadas por linhas coloridas, como um mapa astral feito à mão.

 

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