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Deu normal

Foto do escritor: Rejayne Nardy
Rejayne Nardy
há 3 horas
4 min de leitura

Hoje decidi escrever sobre o corpo feminino. E sei que já passa pela sua cabeça que vou falar sobre nossas questões de sempre: emagrece-engorda, envelhece-rejuvenesce, deseja-recolhe, mostra-cobre. Aposto que você pensou, já vem mais sobre canetas emagrecedoras, dietas malucas, menopausa, sobre o esforço diário pra a gente caber em alguma medida que ninguém soube explicar direito de onde veio. Tudo isso continua importando. Tudo isso a gente ainda precisa dizer, e dizer, e dizer.


Mas hoje eu vou pegar atalho. Falarei disso tudo também, porque nosso corpo é um sistema inteiro, complexo o suficiente para conter interligações que podem explicar parte do que essas questões endereçam. A diferença é que tentarei sair da parte e ir para o todo.


Outro dia uma amiga me contou que saiu do consultório com receita de testosterona, porque andava sem libido e estrogênio desregulado. O médico não perguntou como estava o casamento. Não perguntou do sono. Não perguntou se ela tinha vontade de alguma coisa na vida, qualquer coisa, ou se estava só cumprindo agenda há dois anos. Receita pronta em quinze minutos, já com envio direto para a farmácia associada que oferece desconto. Mês seguinte: libido na mesma e pavio ainda mais curto. Dobrou o problema. O médico, com a paciência de sempre, sugeriu acertar a dose.


Ela não precisava acertar a dose. Precisava de alguém que perguntasse dela, entendesse um pouco melhor o que estava se passando ali.

E é aí que mora a coisa que eu queria falar hoje: o corpo da mulher é sistema. Mas tratam ele em pedacinhos.


A gente vai no ginecologista com um problema, e ele resolve aquele problema. Não pergunta do humor. Vai no endócrino com outro, ele resolve aquele. Não conversa com o ginecologista. O psiquiatra entra na história quando a coisa já apertou, prescreve antidepressivo e ninguém, ninguémmmm, volta a conversa para o ginecologista tentando avaliar se aquele DIU pode estar brigando com a serotonina.


Uma situação típica, cotidiana que, tentando achar uma boa analogia, parece criança montando quebra-cabeça com peças de três caixas diferentes. Encaixa na marra. Fica torto, mas a imagem até dá pra reconhecer.


Tem uma coisa que eu fui aprender tarde, e que só virou pauta na minha cabeça depois de muita conversa de mulher e alguns podcasts que valem a hora... Durante muito tempo, a ciência estudou homem. Os corpos que serviram de modelo pros remédios, pros tratamentos, pras pesquisas foram os corpos masculinos. O nosso, aprenderam por aproximação. Como se a mulher fosse um homem menor com hormônio e útero a mais. É por isso que infarto em mulher aparece como "sintoma atípico" no protocolo. Atípico de quê? Do corpo do homem. Do nosso, é típico, mas ninguém estudou direito.

Quando a gente sente, é vago. Quando eles sentem, é sintoma.


E esse desconhecimento sobre nosso corpo tem consequências. A gente repõe estrogênio pra parar o calor, e o melasma volta. A gente regula a tireoide e ganha energia, mas a mente acelera junto e o sono escapa. A gente toma algo pra ansiedade, e perde o desejo. Conserta um lado, desencaixa outro. Porque corpo de mulher não funciona em silo, não é apenas operacional. Nosso corpo funciona em conversa, em correlação de fatos.


Hormônio fala com humor. Humor fala com sono. Sono fala com produtividade. Produtividade fala com desejo. Desejo fala com como você se sente segura na cama, na vida, com você mesma. Tudo, o tempo inteiro, se comunicando numa linguagem única. Daí vai a parte mais desconfortável do que andei lendo e descobrindo sobre o “sistema mulher”. No meio dessa balbúrdia toda, a gente foi aprendendo a calar. A resumir o que sente em uma escala de dor de zero a dez. A diminuir, na frente do médico, do chefe, do marido, dos filhos, a gravidade do que tá sentindo, com medo de soar dramática. A ouvir é da idade, é estresse, é da TPM.  Esse tipo de frase que encerra qualquer conversa séria.


A pior delas, eu acho, é seu exame deu normal. Tudo está bemmm normal. A pressão, normal. A tireoide, normal. Enquanto a gente sai da consulta achando que tá enlouquecendo, porque o normal do médico não bate com o normal da vida que acreditamos que merecemos viver.


A gente vai pra casa, dorme mal, acorda inchada, irritada, sente dores que não têm nome e finge que tá tudo bem. Toma café. Manda mensagem pra amiga: acho que eu tô surtando. A amiga responde: também tô.


E aí a gente ri porque nesse “também” mora um respiro.


A coisa que mais salva nessas fases é outra mulher que diz, sem hesitar: isso que você tá sentindo não é frescura, amiga. É a colega de trabalho que sussurra no banheiro que também passou por algo igual recentemente. É a mãe que confessa, anos depois, que aos quarenta e cinco achou que ia desabar. Isso é empatia. E empatia, em saúde da mulher, ainda é remédio escasso, mas vem melhorando à medida que a gente lê mais, assiste os tais podcasts que valem a hora e sai por aí escrevendo a respeito.


Porque assim, a gente não fica só esperando empatia dos outros. A gente também produz empatia pra distribuir com fartura. Sobra então a frase e a dica certa praquela amiga que reclama do corpo pela quinta vez na mesma semana ou pra mãe que envelhece e também pra filha adolescente descobrindo as próprias engrenagens. E sobra também mais empatia pra gente mesma, que tantas vezes traduz o próprio cansaço como preguiça, a tristeza como falta de gratidão e a dor como exagero.


E voltando aos consultórios, aos escritórios, às salas de estar e laboratórios, é certo que nos falta quem escute o corpo da mulher como sistema inteiro. Alguém que escute com tempo, com paciência, sem tentar consertar em quinze minutos o que não foi ainda suficientemente identificado e que se combina de formas únicas em cada mulher.


A gente não cabe em protocolo. Nunca coube. E talvez essa, no fundo, seja a única coisa que precisa virar normal.


Mulher e horm

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