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Banho-maria

  • Foto do escritor: Rejayne Nardy
    Rejayne Nardy
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Tem um tipo de gente rara que eu venho gostando de encontrar mais e mais na medida registro um novo ano vivido no calendário.

Não é a mais engraçada da mesa, nem a que chega fazendo barulho. Às vezes demora a falar, mas quando fala, muda a conversa de direção só porque ouviu direito enquanto os outros ensaiavam a próxima frase.


Essa gente é curiosa de um jeito antigo. Lê livro que ninguém indicou. Assiste série coreana e documentário sobre fungo. Sabe quem está saindo com quem em Hollywood, mas também sabe explicar o conflito entre Israel e Palestina como poucos. Conversa sobre Clarice com a mesma leveza que disserta sobre BBB. Não trata as duas coisas como equivalentes, mas só como partes da mesma vida, que é o que elas são.


Esse povo interessante, pergunta mais do que responde. E quando responde, você percebe que tem propriedade naquilo há um tempo, não inventando resposta ali no ato para simular esperteza. É um tipo difícil de encontrar. Ou talvez só menos visível, porque não se oferece.


Também sabe ficar sozinha. Sem filmar, sem postar, sem transformar o silêncio em prova de alguma coisa. Não julga e nem tira print de café pra comprovar introspecção. Não anuncia a própria profundidade. Tem uma intimidade consigo mesma que a gente, de fora, percebe sem esforço: que pessoa inteira.


E aqui entra uma coisa que eu demorei pra entender: a atenção que a gente recebe é uma resposta ao que se oferece. A gente amadurece disputando atenção como quem disputa vaga no estacionamento. Essa gente interessante não disputa espaço. Aparece, faz o que faz, e a atenção vem. Ou não vem, e está tudo certo. Não grita pra ser ouvida. Não faz beicinho quando a mesa muda de assunto. Sabe que correr atrás de palco é, no fundo, um jeito educado de pedir validação, e ela já resolveu isso em outro lugar.


Tem mais, uma certa característica que eu chamaria de amplitude, mesmo a palavra soando meio corporativa.  Amplitude de ideias, de gostos, de gente que conhece, de assuntos que topa entrar. São pessoas que leem sobre o que discordam, conversam (sem alterações de pressão) com quem vota diferente e seguem nas redes gente que não bate com elas, só pra não endurecer. Que misturam alto e baixo, erudito e popular, sem fazer cerimônia com nenhum dos dois.


E, justamente porque são amplas em viver, conseguem conectar o que aparentemente não tem nada a ver. É o tipo de pessoa que está conversando sobre a mãe na fisioterapia e, sem transição, faz uma analogia com uma cena de Succession que cai certinha. A cabeça dela trabalha em rede. A de muita gente hoje trabalha em abas abertas, rasas, intercambiáveis, fechadas quando dá trabalho.


Tem outra coisa que eu admiro nessa gente e que parece simples, mas de simples não tem nada: elas não delegam o pensamento. Não terceirizam a interpretação do mundo pro influenciador, pro podcast das seis da manhã, pra IA criticar e resumir. Consomem tudo isso, sim. Mas depois mastigam. Discordam. Param. Pensam. Devolvem algo que é só delas.


Enquanto eu sigo admirando e buscando mais desse tipo, sinto que vivo num mundo de pastéis fritos em segundos. Conteúdo quentinho, entregue rápido, crocante por fora, pouco recheio por dentro. A gente come sem sentar, engole sem mastigar, e ainda acha que comeu. A gente prega opinião formada em 30 segundos de reels. Livro lido em resumo de três parágrafos. A gente pensa relacionamento avaliado por bandeira vermelha de vídeo viral. Tudo rápido. Tudo raso. Tudo descartável amanhã.


Tenho preferido o banho-maria. Aquele jeito de cozinhar em que o calor vem indireto, demora mais, mas cozinha por inteiro. Não queima por fora enquanto deixa o miolo gelado. Dá tempo pro sabor se integrar. Exige paciência e panela certa. Aquele método tradicional de quem sabe que tem coisa que pressa estraga.


Quero muito conviver com pessoas que escolhem o banho-maria pra pensar. Pra se formar. Pra envelhecer. Pra gostar de alguém. Pra virar a pessoa que querem ser. Eu também queria ser mais esse tipo de gente e menos o outro. Alguns dias tento, poucos consigo. Em muitos, pego o celular antes de pensar, respondo antes de ouvir, tenho opinião sobre o que ainda não li, interrompo pra dizer algo que não acrescenta.


É trabalho. Voltar pro banho-maria é trabalho. Desligar o micro-ondas interno é trabalho. Mas quando encontro essa gente que inspirou essa crônica na mesa, em dia de sorte, eu lembro que nem tudo está pasteurizado. A conversa sai do script. Aprendo uma coisa que não procurava. Dou risada de algo que não era piada pronta. Saio de lá pensando no que foi dito por mais três dias.


Ainda bem que essa gente persiste. Num tempo em que todo mundo quer ser frito em altas temperaturas e poucos segundos, tem quem ainda escolha, teimosamente, o fogo baixo.


Panela em banho-maria no fogo baixo — metáfora para profundidade e paciência na era da velocidade

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