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Ego Gladiador

  • Foto do escritor: Rejayne Nardy
    Rejayne Nardy
  • há 8 horas
  • 3 min de leitura
putin x trump em guerra outra vez

Todo mundo convive, ou já conviveu, com esse tipo peculiar de gente com um ego gladiador. Aquele personagem que entra em qualquer ambiente já em posição de ataque. Espada imaginária em punho, peito inflado, pronto para vencer debates que ninguém propôs.


Ele pode morar com você, trabalhar com você, ser presidente do seu país, treinar na mesma academia ou surgir em sua frente, inesperadamente na fila do cinema, quando você só queria comprar uma pipoca em paz.


O ego gladiador não conversa, ele compete. Não escuta, impõe sua décima quinta vez de falar. Ele não troca, sempre rebate. Discordar, para ele, não é um ponto de vista: é um traço de caráter.


Ele fala a partir de suas convicções autoproclamadas de brilhantismo irrefutável, como se o mundo fosse um grande palco giratório que inevitavelmente só protagoniza vossa excelência "eu". Tudo passa pelo filtro do “eu acho”, “eu sempre disse”, “se fosse comigo”, “se você soubesse com quem está falando”. A experiência alheia nunca é válida, nem ouvida antes da prevista interrupção. No máximo, é um gancho para que ele exponha um ponto de vista melhor, que, claro, é o dele.


Existe uma evidente imaturidade emocional nesse comportamento. Um impulso mal regulado. Uma necessidade quase física de ter razão, mesmo quando o assunto é irrelevante, mesmo quando ninguém está disputando nada. Existe também um ataque garantido a tudo que ele não compreende bem ou não atende seus interesses algumas vezes apelidados levianamente de "interesses estratégicos".


O ego gladiador confunde sinceridade com brutalidade, mistura liberdade de expressão com falta de filtro. E, curiosamente, acha que falar ou fazer tudo o que pensa é sinal de coragem, quando na maioria das vezes é só incapacidade de pensar um pouco mais, estudar melhor o assunto, antes de falar.


Ele se alimenta de achismos, conversas gostosas com afagadores de egos e algoritmos viciados. Compartilha certezas prontas, sem criticidade ou derivadas de delírios dispostos com elegância gramatical pela IA sempre disponível para lhe dar total razão. Prega verdades absolutas fabricadas em timelines viciadas. Nunca duvida,  revisa ou pede desculpa porque, pedir desculpa, exige algo que ele não cultiva: consciência do tamanho do próprio ego.


No ambiente corporativo, ele se fantasia de “perfil forte”. Na família, vira “gênio difícil”. No grupo de amigos, é “do jeito dele”. Sempre há uma interpretação elegante para um comportamento que, no fundo, é só infantilidade bem maquiada.


Conviver com esse tipo de gente cansa. Porque relações saudáveis exigem escuta, pausa, troca e algum nível de autocrítica. E o ego gladiador não opera nesses tempos mais contemporâneos. Ele opera no modo antigo, modo ataque ou monólogo. 


Ao longo da vida, vi algo curioso sempre acontecer com tipos assim. As pessoas ao seu redor amadurecem. Aprendem a identificar mais rapidamente esse tipo de energia. E, sem fazer cena, sem discursar, sem brigar… desviam. Essas mesmas pessoas mudam de mesa, encerram a conversa mais cedo. Elas param de convidar e reduzem o contato ao estritamente necessário. Grande parte da população acaba enxergando que é só mudar o voto. Infelizmente não antes de muita dor e sofrimento.


Evitar, se afastar parece punição, mas não é. É só instinto de sobrevivência mesmo. Vontade boa de conviver com gente leve, gostosa, consciente e humana. As pessoas decidem passar longe, não só por serem fracas em ver o mundo como ele vê (uma arena de luta), mas, principalmente, por preferirem a paz.


Eu penso que o destino do ego gladiador não é o confronto final, a grande vitória, nem a vergonha pública. É bem menos cinematográfico: é falar sozinho. É querer palco e perceber que a plateia saiu da sala. Saiu de perto de quem não merece permanência.


É que quando a convivência fica pesada demais, o corpo avisa. E na vida, a gente aprende que é preciso fugir de coisa ruim. Com elegância, silêncio, desvio de rota.


Deixo aqui um convite: observe se muita gente anda concordando com você, anda se calando para a conversa encerrar. Às vezes, o silêncio dos outros não é concordância. É distância.

 
 
 

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