Oscar da Vida Ordinária
- Rejayne Nardy

- há 1 dia
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Hoje é dia de Oscar. O mundo olha para o tapete vermelho, para vestidos quase impossíveis, discursos emocionados e para aquelas estatuetas douradas que prometem traduzir a dedicação pela arte em um instante de consagração.
Eu gosto dessa noite. Sempre gostei. Assisto à cerimônia, leio críticas, tento ver o maior número de filmes possível. Acho que há algo fascinante na capacidade humana de transformar histórias em imagens, sons, atuações memoráveis.
Este ano, inclusive, temos de novo brasileiros na disputa. Wagner Moura em O Agente Secreto. Adolpho Veloso na fotografia. Temos também aquela certeza brasileira: pra nós, a indicação já é a vitória. O resto é lucro. E exponencial. É que chegar até ali costuma exigir um esforço muito maior do que para quem já nasceu dentro da indústria, dentro do orçamento... é talento artístico e sobre-humano juntos.
Mas algo estranho aconteceu comigo. Neste domingo eu não estou exatamente no clima do entretenimento máximo. Talvez porque o mundo esteja feio demais para que eu consiga me concentrar em espetáculos.
Então, por automotivação, fiz um pequeno exercício. Já que o Oscar é uma premiação inventada por alguém em algum momento, resolvi inventar a minha também. E agora você deve estar pensando quem sou eu na fila do pão. Sou ninguém além de mim mesma, mas considerando a quantidade de ideias duvidosas que já circulam nas redes sociais, acho que posso contribuir com mais uma sem constrangimento.
Assim nasceu, nessa tarde, o Oscar da Vida Ordinária. E o premiado do dia pode ser você.
Você cientista que passou vinte anos dirigindo um roteiro que a medicina dizia ser impossível. O Oscar de Melhor Direção é seu. Porque se dirigir um filme com roteiro pronto já é difícil, imagine dirigir um projeto que depende de ciência, financiamento escasso, persistência e uma fé teimosa naquilo que ainda não existe.
O Oscar de Melhor Ator Coadjuvante é seu, voluntário anônimo que aparece nas enchentes salvando pessoas, animais, carregando sacolas, colchões, marmitas e toda humanidade que cabe no coração.
Melhor Roteiro vai pra você delegada, juíza, advogada, redes de acolhimento que trabalham diariamente com violência contra mulheres e lutam forte para mudar o final de histórias que começam com medo dentro de casa e precisam terminar com proteção real.
Melhor edição vai pra quem teve coragem de cortar pessoas, hábitos e histórias que já não cabiam mais numa vida saudável.
A estatueta de Melhor Fotografia vai pra você que revela beleza onde ninguém olha: numa mesa improvisada com amor, em um móvel reciclado com resto de tinta.
O Oscar de Melhor Figurino vai para o pai que sai de casa exausto fingindo tranquilidade enquanto calcula quantas horas a mais de turno dobrado será preciso fazer para fechar as contas do mês.
O Oscar de Melhor Montagem eu entrego pra quem conseguiu juntar os pedaços da própria vida depois que ela se quebrou. Porque ninguém ensina essa técnica. Não tem escola de cinema pra aprender a reorganizar sonhos interrompidos, relações terminadas de forma trágica ou histórias que precisam recomeçar do zero.
E o Oscar de Melhor Cena de Humanidade vai para aquele médico que abraçou uma criança sobrevivente de um bombardeio. Eu vi o vídeo ontem. O menino tremia. Quando o médico o envolveu nos braços ele finalmente começou a chorar.
Às vezes o mundo parece completamente fora de controle. Mas, de repente, alguém aparece e faz a única coisa possível naquele momento: estar com você, sem script, sem luz que favorece. Apenas um ser humano lembrando ao outro que ainda existe abrigo.
E a última estatueta de hoje, o Oscar de Melhor Filme, vai para qualquer pessoa que conseguiu atravessar mais um ano tentando ser decente num mundo que parece premiar (com festas luxuosas e ostentação) exatamente o contrário.
É... talvez mais tarde eu ainda separe um tempo para assistir à cerimônia oficial. Performances ensaiadas. Aquelas pausas dramáticas antes de abrir o envelope. Eu vou continuar achando tudo bonito, mesmo em dias como hoje... A televisão sempre anunciará os vencedores da ficção para que a gente os reconheça. E ironicamente, as histórias que mais nos arrebatam são justamente aquelas que contêm os gestos que nunca esperaram aplausos.




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