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Sensibilidade Indisponível

  • Foto do escritor: Rejayne Nardy
    Rejayne Nardy
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Comecei por acaso, numa dessas noites em que a gente liga a televisão mais para não ficar sozinha com os próprios pensamentos do que por real vontade de assistir alguma coisa. Escolhi uma série sem muito critério. E isso, preciso confessar, tem sido o meu critério para quase tudo ultimamente. Pelo Caminho (Riplle). Não parecia especialmente promissora, mas também não me exigia nada. E, naquele dia, eu não queria ser exigida nem pelo entretenimento.


Tenho me encontrado assim: pouco exigente com o que consumo, mas também pouco tocada por qualquer coisa. Como se tudo passasse por mim sem realmente ficar. Rolo o feed, leio, escuto, acompanho conversas, opiniões, tendências...e quase tudo me soa repetido, previsível, meio sem gosto. Não é falta de conteúdo. É bem o contrário. É como se o excesso tivesse transformado tudo numa grande vitrine onde nada mais chama atenção de verdade. Nem promoção. E, claro, não estou sozinha nisso. Quem mais?


Eu, que sempre gostei de observar o mundo com aquela curiosidade quase insistente, tenho passado por ele sem me envolver. Funcional, atenta, respondendo tudo (ou quase), resolvendo tudo. Isso já é ótimo, segundo qualquer métrica moderna de produtividade.


Volta e meia, me pego falando sobre essa vida que foi ficando mais acelerada, mais insossa com tanta performance que também parece ter reduzido a nossa capacidade de se aprofundar. Mesmo consciente, eu tenho escorregado para esse lugar: o do tanto faz.


Daí veio a série. E ainda bem, alguma coisa ali, logo nos primeiros segundos, começou a ganhar espaço: os personagens e suas histórias se entrelaçando em  dramas cotidianos que não tentavam parecer extraordinários, só verdadeiros mesmo. Eu  fui então ficando até o último episódio. E me emocionei em todos.


Chorei em alguns momentos, enquanto sorria junto, involuntariamente. Principalmente, senti de novo, emoções que não sei definir e que fizeram com que eu me perguntasse o que tem tem me deixado tão apática. Um mundo mais frio do que eu gostaria de admitir ou meu momento cheio demais de atividades para caber profundidade? Será que é, de novo, a maturidade e seus efeitos colaterais fazendo os dias perderem brilho e exigindo que a gente reaprenda a se encantar?


A overdose de 8 episódios trouxe uma constatação emocionada: talvez eu não esteja exatamente insensível. Afinal, eu chorei, eu ri, fiquei sem ar. Talvez esteja só protegida demais. Protegida pelo excesso, pela repetição, calejada das pequenas decepções que não são grandes o suficiente para justificar um drama, mas constantes o suficiente para justificar um afastamento. Talvez seja só esse mundo algorítmico mesmo, mas tenho dúvidas.


A série, sem querer dar lição nenhuma, foi me lembrando também de algo muito simples e, talvez por isso, tão fácil de ignorar. A gente cruza o tempo todo com pessoas e a gente não sabe o que elas estão enfrentando. Na rua, no trabalho, na padaria, naquelas reuniões em que todo mundo parece funcional demais para estar sentindo qualquer coisa. E, na maioria das vezes, a gente não quer mais saber do outro porque andam nos ensinando que já é demais lidar com o que nos cabe enfrentar.  Já temos o suficiente para dar conta.


Ao longo dos episódios, as histórias se entrelaçam de um jeito que não parece roteirizado. Uma vida encosta na outra, altera trajetórias, cria consequências que ninguém planejou. Exatamente como acontece na vida real enquanto a gente prefere acreditar que está no controle dos dias, do outro.  


Nesse entrelace, vários pequenos grandes temas foram me pegando. As mudanças que trazem encontros e perdas no mesmo pacote. O mundo que segue funcionando, em sua normalidade imparável, enquanto a gente tenta dar conta do que sente. As pequenas alegrias que a gente aprende a segurar quando tudo pesa. O cansaço de tentar dar conta de tudo sozinho. O luto pelas coisas que não deram certo. Sejam elas o tempo, os sonhos, a grana ou os afetos.


Teve um episódio sobre fé. Mas não essa fé organizada, institucionalizada, com resposta pronta. Era algo mais desafiador: acreditar no outro. Acreditar que existe alguma coisa entre as pessoas que sustenta mais do que a própria individualidade. Algo sobre humanidade, sobre acreditar que nossas ações alcançam alguém, mesmo quando não vemos.  Esse episódio... se bem que não, a série inteira, me tirou da indisponibilidade sentimental e me sinto grata por isso.


Quando a série terminou, fiquei com uma sensação difícil de explicar e, como sempre faço, decidi escrever sobre algo reativado por aqui.  Um tipo de sensibilidade que não estava ausente. Talvez, só ocupada demais para aparecer. Segui pensando se essa sensação de vida meio sem gosto não tem menos a ver com o mundo em si (embora ele esteja, de fato, mais duro) e mais com a forma como a gente tem aprendido a se salvar dentro dele. Mais protegido, mais fechado, mais autocentrado do que talvez seja necessário.


Essa série me fez relembrar que existe algo na troca, no aleatório e no simples ato de se deixar afetar pelo outro que devolve sensibilidade à vida. Recomendo, ainda com moderação. Por puro medo do que esse despertar irá me causar.


Ripple.  Série na Netflix

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