Ensaios


Sábado à tarde (ontem), fiz o que faço todo sábado: abri a pasta pra escolher a crônica da semana. Ando distante do blog já tem um tempo, mas o ritual continua.
Abri a primeira. Não me pareceu algo escrito por mim. Abri a segunda. Mesma coisa. Abri a terceira já aflita, torcendo pra estar errada. Não estava. Então aceitei revisitar essa última. Mexi ali, aqui, gostei com ressalvas e, no fim, decidi publicar as três de uma vez e acabar logo com a história.
Uma frase minha me estranhar depois de um tempo é normal, até saudável. A gente muda, a escrita corre atrás. Mas três crônicas inteirinhas é estatística grave demais pra passar por amadurecimento de estilo.
Fui procurar culpado, que é o que a gente faz quando não entende: procura réu. Foi a viagem de férias? A meia-idade, pontual como sempre? A transição de mãe-de-criança pra mãe-de-adolescente que anda gerando pauta por aqui? Sobrou o eclipse recente, que aceito de bom grado, porque quando a razão falha a gente aceita qualquer explicação que venha do céu. Todos os culpados cabiam, e é justamente por isso que nenhum serviu.
A verdade é que a culpada sou eu. Aquelas crônicas foram escritas por alguém que anda mudando de novo, que anda mudando sempre, e que tinha certezas que já não consegue sustentar. Uma delas, importante: sempre escrevi pra me achar. Até aqui, esse foi meu jeito mais confiável de organizar bagunça interna. Ando sentindo que essa mulher (a que escrevia dentro dos limites da casa que precisava ser organizada) está de mudança. E, podem começar a me julgar, não estou nem um pouco interessada em fazer ela ficar.
Vem batendo uma vontade de sair de mim. De inventar histórias que não cabem em ambiente controlado, que extrapolam meu repertório de mulher em crise de meia-idade. É que já ando velha dentro da meia-idade: já fiz 40 há bastante tempo. Deve ter chegado a hora de mudar o disco.
Vem surgindo alguém que não quer mais escrever contido, e sim expandido... que é bem mais desconfortável, dá muito mais trabalho e pode gerar até cancelamento. Bom que tenho pouco a perder nesse ponto aí.
Já que não apaguei nenhuma das três, deixar no blog pra reler com calma um dia desses me pareceu algo correto. Não é arquivo, descobri: é álbum, retratos de palavras.
Ainda não sei se volto a escrever como antes. Desconfio que não. E o que me assusta não é a chance de parar. É a constatação de que não estou com medo. É a vontade de experimentar outros pontos de vista...
O que eu escreveria se, em vez de mãe de adolescente em velha crise de meia-idade, eu fosse o filho do meio, pródigo e bem-sucedido, voltando pra casa da mãe depois de um casamento e um negócio falidos? Quais parágrafos estariam no texto daquela menina de 25 anos que não sabe se vai atrás dos sonhos ou fica no emprego que já não arrebata, mas promete prosperidade?
Ando querendo escrever sobre gente que não sou, mas que também me faz sentir. Sem idade definida, sem gênero definido, sem filtro nenhum. Nem sei quem vai chegar, e essa é exatamente a parte boa.
Ensaios de quem nunca fui estão pra chegar. Roteiros de vidas que não vivi, mas que também podem me organizar. Ou me bagunçar de vez, o que também serve.



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