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Esperançosos

  • Foto do escritor: Rejayne Nardy
    Rejayne Nardy
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Deu empate ontem, mas a gente ainda parece seguir na dianteira. O Brasilcore se fortalecendo, o país reunido como melhor sabe fazer, aquela esperança quente no coração, o país inteirinho e a Times Square tomada em festa. Isso é nosso. Sempre foi e sempre será. A gente sabe que, seja em Copa, seja no clássico de domingo, não falta jogo pra se jogar.


E talvez seja por isso que a Copa é uma coisa tão brasileira. A gente sabe que a vida é jogo. Que a cada manhã tem corre pra viver. Que oportunidade é pra poucos, que todo dia tem drible pra fazer e mesmo assim a gente não entrega o placar. Não faltam frases pra nos definir: "O Brasil não é para amadores. Vai na raça, Brasil. Deus é brasileiro."

Tem dia que a gente joga bem. Tem dia que joga truncado. Um pouco como ontem, em que, mesmo com um gol lindo, o resto do time ainda parecia se apresentando uns aos outros. E, nas conversas de bar, nos noticiários... a esperança se mantendo praticamente intacta.


É que o brasileiro, mesmo na escala do cotidiano, joga uma Copa todo santo dia. Tem esperança renovada toda manhã.


Tem o torcedor que xinga o time o jogo inteiro e chora no hino. Esse, no espelho da vida, é o brasileiro que reclama do país no grupo do trabalho, mas que se uma gringa critica na reunião de resultados, reage como se tivessem mexido com a mãe dele.


Tem o torcedor que acende vela, faz simpatia, manda foto da escalação pra mãe rezadeira. É o brasileiro que reza, joga na Mega, manda currículo sem ter as qualificações do cargo, vai à terapia pra se conhecer melhor mas acredita mesmo que quem cuida dele é o santo padroeiro.


Tem o torcedor que transforma a sala em arquibancada, frita peixe, abre cerveja, junta vinte pessoas em três cadeiras. Aquele tipo que faz festa em cima de pouco, que aprendeu desde criança que afeto coletivo é matéria-prima nacional, que sobra mesmo quando falta tudo.


Tem o torcedor pessimista profissional, que jura que a gente cai nas oitavas, que o técnico não sabe o que faz, ou que essa seleção não passa do Haiti. Mesmo assim, chora se a gente perder e chora se a gente ganhar. Esse é o brasileiro mais típico: protege o coração antecipando o pior pra poder se entregar inteiro quando o melhor acontece.


Dessa vez tem mesmo muita gente falando que não vai dar. Que a seleção não é das melhores. Que falta craque, falta ritmo, falta peso. E tem muita gente que já sabe, com a calma de quem viu tudo, que dando hexa ou armando de novo 7x1, o que tempos como esse ensinam sobre a gente é que ser brasileiro é ter esperança e sorriso no rosto acima de qualquer dor.


E fora da Copa?


Concorda que a gente é pouco patriota nas coisas que mais importam? Na valorização das nossas crianças, que merecem escola de verdade e não promessa de campanha. Das nossas mulheres, que morrem em casa todo dia e a gente vai acompanhando pela internet sem ação. Das nossas escolas, que viraram sobrevivência em vez de futuro. Da nossa cultura, que a gente exporta inteira pro mundo mas trata com desdém aqui dentro.


Esse jogo é o verdadeiro. E nesse, a gente joga bem pior que bem. Entramos desfalcados e parece que é de propósito. A gente só conta com a esperança, o santo, o jeitinho e nada de treinar direito.


E exatamente nesse ponto, entra o nosso maior paradoxo. Mesmo desfalcados nessas frentes que doem mais, a gente nunca, em momento nenhum da nossa história, abandonou a crença inabalável de que desse jeito nosso (estranho, torto, memético, desdenhoso, irônico, faminto, hospitaleiro, escancarado e barulheiro) a gente é povo que se une pra torcer. Que se une pra gritar. Que renova esperança mesmo quando o placar já era.


E talvez seja isso que ainda proteja (em parte) nossas crianças, mulheres, escolas, cultura. A gente levar essa mesma esperança de Copa pros jogos que rolam todo dia.

Certos: tem mais jogo pela frente. Tem muito jogo pra se jogar. E mesmo quando o placar não vem no tempo que a gente queria, a esperança vem. Sempre veio. Sempre virá.


Esperançosos. É o único título que a gente nunca perdeu. E que, numa contradição evidente, nos faz avançar.


torcida brasileira na Times Square - foto CNN.

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